
Era uma moça e todos percebiam, duas pernas seguiam a lógica dos braços magros, perambulava com um cigarro vagabundo, as roupas cheiravam à fumaça e doces em calda, aquele cheiro havia impregnado-se em minha mente, chamava-se curiosidade e me jogava na cela, gostava do êxtase de observa-la e sentia uma ameaça engolindo fumaça escura na chuva.Devia fumar até durante o sono, eram inúmeros tipos de cigarros que me possibilitavam mil e uma observações, talvez ela - assim como eu- participasse de um teste, uma avaliação para fazer da conspiração algo nítido e instigante, paranóia.
Atravessava pelo meio dos carros vermelhos, a inveja me conduzia a imaginar um revólver, triturar o desejo de cada um daqueles garotos, crianças que vendiam doces e a seguiam com olhos esfomeados, talvez desejassem um churrasco ou apenas aquele vestido de natal.Aluguei um espaço na calçada, conseguia observar cada história medíocre que se repetia dentro da semana,s intrigantes relações de escravidão, empregado-patrão e a vergonha mútua.Compreendia todas aquelas janelas, havia partes daquelas criaturas em cada pensamento que me ocorria, mas eu queria, Ela.
Curtos e claros eram os cabelos, numa noite de raios e fios, ela cheirava a vodka nacional, o meu desejo ilustrava cada instante, queria fitar aqueles olhos de consumo em eterna chama e ela talvez só quisesse uma peruca, queria conduzi-la, mesmo que superficialmente.Espreitava o riso cínico e me aquecia aquela vida ali, perto-distante, era minha menina antítese, a figura de linguagem que sempre me prendeu, nunca tive aquele nome, era Maria de qualquer coisa, e eu cobiçava.
O grande perigo está em viver atrás das portas, meu emprego não cobria fascinações ou devaneios coletivos, precisava não mais desviar para aqueles sapatos que brilhavam, nas quartas-feiras eram vermelhos e hoje cinzentos, minha possibilidade era um incêndio,os olhos queimavam e o cigarro também.Sentava na sacada, o terceiro andar sempre me despertou simpatia, mas eu deixava os apartamentos que antecediam o décimo para menina-antítese.Era um domínio sem precedentes, eu sabia que seria descoberta a qualquer instante, a curiosidade mórbida só aumentava o constante arrebatamento, me pagavam para tecer comentários a respeito do alheio, queria eu possuir uma vida para além das observações e conclusões, o sangue tentava pular em minhas veias roxas, resumia meus ímpetos longe do maldito jogo de troca de expectativa: tédio.
Eu ousava pontuar cada linha com o sentimento, talvez fosse a raiva que vertia daquela aspiração ambiciosa, escrever o nome dela em vermelho e com uma fina agulha grafar na íris de cada um dos meus olhos, obsessão esteticamente inviável.Nasceu um gramofone colorido, eu percebia que os sorrisos eram mais sinceros e os finos braços dançavam uma ciranda louca no ar, nunca escutei nenhuma canção, talvez ela fosse surda ou até cega, não enxergava a vulgaridade que escorria de seus cabelos durante o temporal, julgava-se aparentemente limpa.
Pensei em adentrar o espaço dela e destruir o gramofone, a felicidade de minha desejava menina-antítese tornou-se insuportável, eu admirava aqueles dentes que nunca avistava e a fumaça que espantava sua letargia, com a chegada daquele trambolho que sequer funcionava os olhos dela dançavam uma valsa de contentamento,o universo daquela realização lhe bastava,e eu não podia conceder outra forma de felicidade à ela,senão a correspondência de minha aspiração,eu não permitia e minha autoridade era nula,apenas observava.
Naufraguei nas ruas movimentadas e testava a funcionalidade de minhas percepções visuais, ainda assim o cheiro de doce em calda e cigarro sem categoria me perseguiam, eu entrava em becos e tentava sair daquela doença,sempre soube que todos éramos servos das sensações,escravos de um desejo que fazia viver e sangrar.Subitamente surgiu uma coragem, entrei lá e levei aquele gramofone, o destruí de maneira quase que apaixonada, assumo que era um objeto fantástico, talvez ali estivesse a essência daquela mulher, asco e desejo, suor e a vontade de vertigem vermelha.
Saltei da cama, a insônia não mais me consumia e as psicoses agora cediam espaço à uma esperança quase que contagiante, eu sentia nojo do novo-estar-dentro-de-mim e não controlava.A enxerguei morrer.Atirou-se do terceiro andar e eu nada pude fazer, a única possibilidade absurda que ocorria segura-la, deixei cair e percebi que só o gramofone sem utilidade cessava seu olhar de chamas intensas, a culpa não me percorria e o sol matava algumas células, o barulho da ambulância era um alívio, ela estava morta.Passava uma banda, eram roupas engraçadas e desconhecidos administrando o barulho daqueles instrumentos, homenagem de um gramofone para um corpo estendido, eu apenas enxergava.
4 comentarios:
pedra acentuada,é menina?
e continuando a olhar o gramofone da janela do terceiro andar...
gostei mto do seu blog!!!!
depois visita o meu...
absurdo.
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