16 septiembre, 2007

"Faster pussycat kill,kill."




“O verão se aproxima. Precisamos beber”, era sem dúvida uma frase eloqüente, durante muito tempo foi presença confirmada em minhas memórias despedaçadas, eram cacos martelados por obrigações e eu apenas continuava a cumprir minha saga paranóica: observar. Deparei-me com ela numa esquina limpa e arborizada, acreditei que aquilo era um recorte de espaço dentro da cidade obscena, exatamente como as previsões mostravam,verão-época-na-qual-devemos-acontecer,as pessoas surgindo e se esvaindo no suor de seus corpos ou nas garrafas de cerveja quebradas,eu pisoteava na vontade de beber licor.As características físicas eram comuns,tentei definir e só percebi abstrações,aquela moça fazia parte do senso-comum e meu dever era me aproximar,sufocar seria um encanto,a mente sempre borbulhando invenções pecaminosas,cabelos-louros-estatura-mediana-olhos-azuis-e-as-maçãs-do-rosto-sempre-coradas,ouso até dizer que antes da morte era agradável observa-la.Sim,obviamente ela irá morrer de uma maneira simples e sem cores,morrerá pois não há fado maior do que ser ausência.



A casa era branca e as paredes limpas,havia um quintal que parecia estar sempre conduzindo uma espera,o eterno aguardar pela formação de qualquer coisa,uma planta poderia brotar,uma embalagem plástica voaria e encontraria consolo na grama alta,talvez um cachorro trouxesse alheia assim como uma família,mas não havia nada,apenas possibilidades que enquadravam aqueles muro com sombra de formalidade.Ela cumprimentava os vizinhos e tragava fundo o cigarro enquanto esperava o ônibus,chama-se Santa,era jovem e com traços europeus,quando o verão chegasse sua pele alva agonizaria.Chama-se Santa e eu atentava para os detalhes,não havia rota que não apontasse para a queda,andava com um sorriso cinza,era a solidão,assim como o quintal ela aguardava qualquer berro de intensidade.


Um príncipe reencarnado assolava seus sonhos, era constante a projeção de que um homem morria num apartamento e trocava de espírito com o amante de sua esposa,logo o morto voltava e o amante morria,nunca entendera o significado de tal sonho,era apenas uma idéia que lhe visitava nas noites após o vinho.Santa tinha um affair com bebidas baratas,sentia o cheiro e considerava a solidão um excelente aprendizado,bebia dos piores vinhos e fumava os cigarros que mais lhe matassem,apesar de todos os hábitos desejava o efêmero,passagens rápidas para o outro lado da esfera,Deus havia lhe concedido a mediocridade,ela apenas fazia uso e eu monitorava o funcionamento de sua rotina.



Escolhera o feriado, concentrei-me então em perceber tudo o que ocorria,nenhuma flor brotou no quintal e o sofá vermelho era um disfarce para as manchas de vômito,depois do sonho corria para o banheiro e entregava seus líquidos e desejos ao esgoto,o subterrâneo fervia assim como o copo com leite sob o fogão.Enquadrava-se cada vez mais naquelas ocasiões,o emprego e os vizinhos,tudo parece transpirar e cheirar azedo,a sensação de rapidez exigia a falta de medos,conseguira anfetaminas,eu pensava que ela queria abandonar o príncipe confuso nas noites depois de copos de vinho nacional,entretanto não era o sono que lhe perturbava e sim a falta de sofrimento.Era preciso sangrar e sentir até a alma arder,queria fazer por si mesma,não existia ninguém que pudesse impedi-la,Santa desejava um risco rápido,um fósforo aceso no posto de gasolina,combustão instantânea antes da estação infernal.



Ela abordou-me no ponto de ônibus, tremi ao observar a fumaça do cigarro entrando pelas minhas narinas, chorei em pensamento e por fim escolhi o controle, afinal eu não passava de um abutre encantador, ossos e carne, ainda restavam-me os dentes e eu sorri. Pensei em avisar que a overdose seria fatal, os olhos azuis revelam uma sabedoria que só o isolamento podia conceber, fitei o chão e senti aquele perfume barato no pescoço, logo vi um chiclete já sem cor que ela mastigava, cada passo parecia-me um susto mais eficaz e eu tentava desviar, o ônibus chegou.


Anoitecia devagar e ela caminhava solene, esperava um assalto ou um tiro de raspão, nada ocorria. Brotava algo naquela grama, talvez fosse à esperança cinza como o concreto, ainda assim não existiam motivos lógicos para desistir, era o desejo mais puro de Santa, a velocidade fatal. Abriu a porta e arrumou o tapete, não percebeu a flor lilás que iluminava seu pátio verde, era apenas uma insignificância e fazia analogia com seu viver, desviou todas as idéias otimistas e se fixou naquele pote redondo que decorava sua mesa, eram comprimidos redondos e brancos,engoliu o vidro inteiro e pensava numa transe intensa,a respiração falhava e em contrapartida o coração explodia,efeito colaterais da vontade,ainda se percebia uma resistência,o ultimo suspiro enquanto os carros passavam,hoje não existiam vizinhos e Santa estendia suas perspectivas vazias no tapete amarelo,produtos de liquidação e um rosto iluminado,passaram-se dias enquanto ela apodrecia,a família pediu que colocassem seus cabelos em uma boneca.


3 comentarios:

Wagner, The Llama dijo...

E a solidão. Essa é capaz de nos levar pros melhores lugares. Ou pros piores, depende da quantidade de vinho ingerido.

beeijo.

cra dijo...

muito

Salve Jorge dijo...

É primavera e precisamos beber...