
A casa era branca e as paredes limpas,havia um quintal que parecia estar sempre conduzindo uma espera,o eterno aguardar pela formação de qualquer coisa,uma planta poderia brotar,uma embalagem plástica voaria e encontraria consolo na grama alta,talvez um cachorro trouxesse alheia assim como uma família,mas não havia nada,apenas possibilidades que enquadravam aqueles muro com sombra de formalidade.Ela cumprimentava os vizinhos e tragava fundo o cigarro enquanto esperava o ônibus,chama-se Santa,era jovem e com traços europeus,quando o verão chegasse sua pele alva agonizaria.Chama-se Santa e eu atentava para os detalhes,não havia rota que não apontasse para a queda,andava com um sorriso cinza,era a solidão,assim como o quintal ela aguardava qualquer berro de intensidade.
Um príncipe reencarnado assolava seus sonhos, era constante a projeção de que um homem morria num apartamento e trocava de espírito com o amante de sua esposa,logo o morto voltava e o amante morria,nunca entendera o significado de tal sonho,era apenas uma idéia que lhe visitava nas noites após o vinho.Santa tinha um affair com bebidas baratas,sentia o cheiro e considerava a solidão um excelente aprendizado,bebia dos piores vinhos e fumava os cigarros que mais lhe matassem,apesar de todos os hábitos desejava o efêmero,passagens rápidas para o outro lado da esfera,Deus havia lhe concedido a mediocridade,ela apenas fazia uso e eu monitorava o funcionamento de sua rotina.
Escolhera o feriado, concentrei-me então em perceber tudo o que ocorria,nenhuma flor brotou no quintal e o sofá vermelho era um disfarce para as manchas de vômito,depois do sonho corria para o banheiro e entregava seus líquidos e desejos ao esgoto,o subterrâneo fervia assim como o copo com leite sob o fogão.Enquadrava-se cada vez mais naquelas ocasiões,o emprego e os vizinhos,tudo parece transpirar e cheirar azedo,a sensação de rapidez exigia a falta de medos,conseguira anfetaminas,eu pensava que ela queria abandonar o príncipe confuso nas noites depois de copos de vinho nacional,entretanto não era o sono que lhe perturbava e sim a falta de sofrimento.Era preciso sangrar e sentir até a alma arder,queria fazer por si mesma,não existia ninguém que pudesse impedi-la,Santa desejava um risco rápido,um fósforo aceso no posto de gasolina,combustão instantânea antes da estação infernal.
Ela abordou-me no ponto de ônibus, tremi ao observar a fumaça do cigarro entrando pelas minhas narinas, chorei em pensamento e por fim escolhi o controle, afinal eu não passava de um abutre encantador, ossos e carne, ainda restavam-me os dentes e eu sorri. Pensei em avisar que a overdose seria fatal, os olhos azuis revelam uma sabedoria que só o isolamento podia conceber, fitei o chão e senti aquele perfume barato no pescoço, logo vi um chiclete já sem cor que ela mastigava, cada passo parecia-me um susto mais eficaz e eu tentava desviar, o ônibus chegou.
Anoitecia devagar e ela caminhava solene, esperava um assalto ou um tiro de raspão, nada ocorria. Brotava algo naquela grama, talvez fosse à esperança cinza como o concreto, ainda assim não existiam motivos lógicos para desistir, era o desejo mais puro de Santa, a velocidade fatal. Abriu a porta e arrumou o tapete, não percebeu a flor lilás que iluminava seu pátio verde, era apenas uma insignificância e fazia analogia com seu viver, desviou todas as idéias otimistas e se fixou naquele pote redondo que decorava sua mesa, eram comprimidos redondos e brancos,engoliu o vidro inteiro e pensava numa transe intensa,a respiração falhava e em contrapartida o coração explodia,efeito colaterais da vontade,ainda se percebia uma resistência,o ultimo suspiro enquanto os carros passavam,hoje não existiam vizinhos e Santa estendia suas perspectivas vazias no tapete amarelo,produtos de liquidação e um rosto iluminado,passaram-se dias enquanto ela apodrecia,a família pediu que colocassem seus cabelos em uma boneca.
3 comentarios:
E a solidão. Essa é capaz de nos levar pros melhores lugares. Ou pros piores, depende da quantidade de vinho ingerido.
beeijo.
muito
É primavera e precisamos beber...
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