25 noviembre, 2007

"Whatever words I say, I will always love you."



Surgiu numa tarde gelada de domingo, as palmas das minhas mãos estavam ásperas, o vento era leve e a atmosfera me carregava ao único destino onde eu reconhecia a vida, chamava-se sono. Eu havia devorado uma gelatina amarelada, nem ao certo reconhecia o sabor, essa coisa de sentir prazer diferenciado coisas não é meu ponto forte, enfim estava exausta e entreguei-me. A morte significava agora uma tentativa e a vida também, talvez eu almejasse certa dignidade ainda desconhecida, prefiro nem atingir o pensamento racional, continuarei a anotação na linha de doçuras que se poderia escrever com confetes no peito, para lamber e sorrir,como numa infância perdida.



Eu descrevo o processo completo, olho para o teto e viajo dentre as madeiras de pintura já envelhecida, penso em adjetivos e em como iniciar, queria um nome bonito, vou chamar de onírico-fantasioso-deslumbrante ou talvez deixe uma lacuna gigante, não tenho capacidade para decidir. E continuo apesar de cada falha, os calos nas mãos e as canetas que estão intimamente perdidas, não gosto da ordem proposital, não entendo como conseguem forjar certa sensibilidade ou até criar uma espontaneidade para se preservar, eu prefiro destruir e construir lentamente, como um jogo ou até um bolo de casamento que aos poucos desaba.




Ela veio com um sorriso selvagem, perguntou-me se eu conhecia aquele que trajava as roupas cor-de-rosa, eu respondi com um gesto que nunca tinha o visto. Caminhamos pelas ruas com sorrisos largos e nossos corpos repousavam próximos, nos separamos, pois eu precisava cumprir as regras e fui buscar o que me parecia destinado. Estava partindo e esse era o ponto - talvez o porto também – pela primeira vez na vida eu abandonara algo e sabia que nunca mais repetiria tal instante, eu tinha tanta certeza que o coração quase explodia de segurança, eu precisava caminhar.




Todas as outras encontraram-me encantadoramente fisgadas, dançavam um tango contente e riam ao ver meu espanto refletido nos vidros daquela cidade, a noite era tão distante e eu seguia. A encontrei. A chamei de minha querida e trouxe para lamber meus confetes no peito, mostrei as frestas escondidas no meio do campo, arrastei por becos e portas que magicamente abriam, mostrei o feio e o terrível, choramos desesperadas e eu não queria nunca deixar de enxergá-la. A amargura semi- mística de cada instante era um pequeno rapto, o pranto,o abraço e o sorriso, eu gritava que a amava enquanto corríamos pelo campo junto com búfalos que sequer demonstravam vida,dentro-nós-depois-daquele-instante-tudo-estava-imóvel-e-não-havia-tempo.




Situei-me no espaço e a conduzi até um museu que fora tão lindo que agora doía, encontramos dois homens velhos trocando abraços, chorávamos lindas e não era dor, talvez fossem feridas cicatrizando, era o mar ali penetrando em nossos poros e secando com acidez cada cratera que antes significava alguma debilidade. Prometeu-me ficar até dezembro, mas eu não sabia em que mês vivíamos – naquele-instante-restava-nos-a-vida-inteira-e-simples-exatamente-como-é-ali-era-a-vida - então eu criava pequenos demônios e os usava para atormentar minhas gargalhadas doidas, estava exausta de tantas certezas e inseguranças, o tempo era um grande conforto e eu sentia a liberdade usando qualquer nome. É confuso, eu sei. Entramos numa escada tão pequenina que quase tivemos de amputar nossos corações, então encolhemos a barriga e engolimos a saliva, enfim passamos, era a última entrada. Dezembro significava depois da vida, o ultimo mês era a grande morte ou perder-me dela para sempre.

- Eu queria que ele estivesse aqui ou então que me amasse com esse riso de satisfação com o qual você a ama.
Ela silenciava e eu prosseguia com os gritos, as frases faziam um sentido tão pessoal, aquilo fora tudo o que eu poderia dizer e eu disse, lentamente e rasgando as entranhas eu dizia que Ele devia me amar, era correto e justo, porém delírio.

-Eu queria um pedacinho dele, nem que fosse um segundo ou qualquer coisas simbólica, eu quero.

Então ela se pronunciou, abaixou a cabeça e falou com leveza:
- Não o queria inteiro?
E eu pensei em chorar ou até me atirar daquela janela, a noite se aproximava. Raciocinei e apenas respondi:
-Eu o quero inteiro, quero as metades, eu estou aceitando o que ele quiser enviar, eu o amo. Tanto.

-Eu te amo.

-Nós nos amamos.

E acordei, emergi do momento mais lindo da vida para voltar a esse salto maldito de realidade linear, saí do sonho e pesava tanto ter estado ali, pe-sa-va como a morte em dezembro ou perder-se para sempre depois de aventurar-se numa pequena escada, não há fuga e o desespero é sempre o motivo maior de qualquer pranto, agora é noite e não procuro encantos além de alguma verdade suja, não há fuga. Narrar-descrever e esquecer.



2 comentarios:

Scheila dijo...

Palavras que cortam como lâmina a emoção do angustiado leitor. São viciantes seus caminhos literários, sua eterna (des)construção da vida linear nos apresenta labirintos imaginários que com certeza nos perdemos um dia.

carlos dijo...

e fui buscar o que me parecia destinado