17 diciembre, 2007

Nenhum herói.


“Nós somos antípodas”, com certo ar de poeta fracassado ele pronunciava as palavras lentamente, como se realmente fossem um só, tateando a geografia das emoções talvez realmente estivessem em pontos opostos, não há nesse caso uma fórmula para que se possa dar exatidão. Voltava a afirmar, não lembrava do termo em francês usado para definir uma esquizofrenia conjunta, talvez estivesse sozinho e queria morrer, era um desejo explicito, nasceu no momento exato em que algo partiu-se, deixou que um caminhão atropelasse seu gato de estimação, observou e pressentiu o momento em que seu companheiro seria aniquilado, ficou estático e agora pinta signos sem sentidos nas paredes, escreve linhas tortas e tenta chorar.



Não havia tempo preciso e a necessidade de um conforto era disfarçada, carecia de um pouco mais do que simples atenção, talvez fosse só o ego ou a falta de familiaridade com humanos comuns, não era capaz de desligar-se das idéias sem conexão e definir algo claro, não era possível abandonar o mundo, o seu mundo. Chamava-se Marco, ou talvez Henrique, é complicado afirmar, afinal de contas durante o tempo em que o observei ele jamais fora chamado pelo nome, logo atribuí algum significado à sua face pouco rosada, criei uma identidade baseada na visão crua e superficial, ele transformara-se em lembrança, vaga poeira de um instante que não se pode varrer, agora circula dentre meus caminhos escusos e pouco confiáveis, a forma como a história é contada dependente exclusivamente da interpretação do narrador e de tudo que o mesmo absorveu, engoli a essência.



Volto ao felino e me pergunto se realmente já o dissequei, a retórica é sempre um tanto quanto vazia. Ambos apreciavam os silêncios e as cores claras, “tinham alma leve”, assim eu falaria se acreditasse que a carne precisa de algo além do desejo para mover- se. O gato não tinha raça definida ou Marco (escolhi o chamar assim, impõe alguma saudade bonita e histórica, o nome.) em sua ignorância generalizada não sabia perceber, o porte era inegável, o bicho era esnobe e aparecera repentinamente, entrou por uma janela e não pode sair, toda tentativa é uma cela. G, quando tentava chama-lo marco usava esse nome, era apropriado, afinal existem tantas coisas bonitas que iniciam com essa letra e coisas feias também, era no fim muito cômodo e até concedia um ar de mistério a situação. Ninguém se alimentava, não entendo como sobreviviam. Jamais os vi famintos, sempre apáticos, característica que lembra certa desnutrição, poderia ser um vazio maior do que a própria fome ou até a tão aclamada iluminação, resta escolher o mais trágico.


Graciosos, durante todo o tempo brincavam de contar horas e não fazer absolutamente nada. Trancafiados num quarto escuro, era um hotel, Marco devia estar procurando ali algo além do egoísmo que todas as pessoas devotavam a ele, queria ser servido e era, porém nunca pedira nada, nem sabia que poderia usar aquele estranho aparelho verde para se comunicar com a recepção e ordenar que lhe trouxessem algum conforto, não sabia e mesmo acompanhado continuava não sabendo de uma porção de coisas ou só conhecia aquilo que não devia morder, perdera o juízo. Prados o tempo inteiro, exatamente no meio da cama cheia de pêlos brancos e restos de sono perdido eles ficavam, não havia contato direto, a questão era apostar alto e continuar jogando, a solidão seria um cinismo infinito, afinal não tinham nada e tinham um ao outro. O gato amara seu dono e a situação inversa contava com a mesma verdade, era um afeto marcado, uma dança de compasso marcado que quebrava cadeiras velhas e jogava para longe os ácaros do tapete, aguardavam sempre, a espera remetia ao todo e nesse caso desejar a metade ou comer só uma fatia representaria uma infelicidade tremenda, não bastava querer, o bonito era não dizer nada e precisar, necessitar até das ilustrações bonitas que se criaria se houvesse comunicação, construir o castelo, para que enfim ambos continuassem, porque prosseguir com o nivelamento das ações denotava esperar e isso era definitivamente tudo o que um oferecia ao outro sem cobranças.


O cadáver era bonito, exposto ao sol poderia se solidificar ou provocar uma espécie de negação ao corpo, o nojo escorria hotel abaixo e poderia ser verde. Uma distração e não havia mais absolutamente nada, o gato oferecia a segurança de alguma recompensa, a espera poderia até ser vã, talvez fosse apenas aguardar a morte, no entanto com o caos e uma companhia tudo fica mais aceitável, menos a perda. A morte do gato não fora poética, um caminhão de mudança o atropelou, carregava móveis de algum desquitado que na tentativa de esquecer do fracasso fugia da cidade, porém guardava algumas lembranças ou simplesmente não soubera o que fazer com a parte ridícula que lhe coube na divisão de bens, seus móveis, as rodas, o logotipo e as cores assassinaram um ser vivo, e tantos outros. Lamentar era uma saída cretina, então Marco, João ou Paulo retornou à sua vida de pensamentos alheios e sugestões que não eram um caminho. Desfalecer seria bonito, então morreu. Realizou seu desejo enfermo, o desejo mais seu, imitar o destino do gato, simular o infortúnio de sua motivação. O quarto de Marco, João ou Paulo, fora atingido por um raio, o hotel era antigo e não suportaria, entretanto só ele acabou-se, queria com ardor não mais pensar, depois do fim de G estava inserido numa realidade e fazer parte de algo é sempre um pavor, perdeu-se para não encontrar mais o reflexo, o corpo foi encontrado pelas faxineiras que insistiram em perceber o odor, tinham a alma breve, ambos.

2 comentarios:

cra dijo...

o que voce merece, lou reed?

Patrícia Colmenero dijo...

Raisa, que bom que nos descobrimos!
Com o seu texto, tive aquela impressão que a escrita introspectiva de Clarice me dá. Achei instigante a impessoalidade que você dá ao personagem, nem sabendo nomeá-lo ao certo (adoro personagens sem nome!) e, ao mesmo tempo, mantendo uma linha intimista. Bom contraste! O ritomo de apresentação desses cacos da história é muito bom também, original. Gostei desse seu revelar sem revelar. Um constante mistério anônimo. O melhor de tudo foi o titulo. Nenhum herói foi ótimo para descrever essas mortes um tanto vãs. E não vivemos todos vidas um pouco vãs? E não é por isso que escrevemos? Para dar algum glamour à vida?
Imprimi outros textos seus. Volto mais tarde para comentá-los também.
No meu blog você disse que não acreditava em nenhuma de minhas palavras...porque? Fiquei intrigada!
;)